quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Volta

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E foi ali, no final da escada, quase que de cara para o portão que acena para a rua, que paramos e nos sentimos presentes. A presença, apenas. A respiração. O cheiro. O ar. Não nos olhamos, pois não tivemos coragem. Ficamos parados. Sabíamos o que estava acontecendo e não era preciso mais nada. Eu olhei para ela, cauteloso, e sentia que ela rabiscava meus olhos com rápidos jatos de retina. Iris escura, quase esconde o sorriso escondido com elásticos de metais que protegem os dentes bonitos, mas precisam de disciplina, olhos artistas malandros que erram na escolha. E foi ali a última vez em que a vi. Tão inesperado. Tão inesperado quanto o golpe fatal para um jovem coração vermelho que agrava o seu problema com doses traumáticas de açúcar diariamente.

E foi ali, ao telefone, ela disse que não iria mais. Seca. Eu engoli seco. Como engolir uma pedra, e não conseguia entender ou aceitar, ou acreditar, ou decifrar o porquê.

“Ah, não vou mais não...” disse.

Escutem vocês: esta mulher disse tanta coisa, disse que ficaria revoltada se eu me fosse!

Disse que era bom me ter por perto. E olhem só! Ela disse que não vai mais me ver!

Perdão, senhores, acho que não ouvi bem. E agora, será que vamos ficar assim, jogados na sarjeta como embalagem vazia de biscoito vagabundo? Aos cães? Aos ratos? Então, senhores, será que vamos fazer isso? Ficar apanhando como um cão abandonado por não haver espaço na casa? Será que perdemos o valor? Senhores, vamos, vamos fazer alguma coisa que faça sentido! Vamos fazer alguma coisa que tenha sentimento! Que arranque dos outros e de nós mesmos as máscaras coladas na cara há tanto tempo que já perdemos as contas dos dias, das horas, do vento, do gelo e inverno que passam através de nossa história que acaba como uma nuvem que passa lenta e discreta num céu claro que anoitece todos os dias. Nossa história que acaba. A morte da vida. A morte de ser alguém individual. A sobrevida automática de todos aqueles que andam sem saber para onde e para quê. Seguem a direção natural determinada por alguém determinado por alguma circunstância que poderia ser banal e facilmente evitada.

Com frieza e despojamento, ela me falou ao telefone que achava melhor que não nos víssemos mais e sei que, com alguma dor, desligou-me de sua vida. E eu desliguei-a da minha. Vida é como voar e não voltar ao mesmo metro cúbico. Não ocupar duas vezes o mesmo exato espaço. A volta não será a volta, mas sim uma outra viagem. Boa viagem.


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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

in..... in.... in... in.. in.. in..

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

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Onde o eco se encontra?
Ah...ah...ah......ahhh....
Tchin!

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Que dúvidas fiquem.

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Acordei acho que 12:45, ou algo perto disso.

De frente para a mesa de cabeceira que não existe

Em meu quarto, posso achar a escova com que vou

Escovar minha barba. Me invoco com meus pensamentos.

Ora me deixam solto, com vontades de criança, de jovem,

Ora me deixam velho, rançoso e coerente com o inútil esmo.

Bá, que exagero! Olha só quem tá falando em pensamento!

Mas que coisa, eu sei me comportar exatamente!


Bom, então me arrumei como um cavalheiro

Fui e voltei do banheiro para ver se estava de acordo

Com meu bom gosto de sempre. Estava. Fui trabalhar.

Peguei meu ônibus. Tenho carro, um carro do ano passado,

Não vou fazer propaganda, mas deixo-o na garagem.

Meio ambiente! Meio ambiente! Só de pensar neste

Ar e nesses prédios feios que me deixam doente!


Fui e voltei do trabalho, o qual não revelarei neste manifesto,

E cheguei de volta em casa. Percebi que estava com fome e

Fui à geladeira. Na intenção de comer um sanduíche de queijo,

Talvez com ovo e algum outro frio, abri a porta e me deparei com

Arroz, peixe, farofa, enfim, comida. Comi. Comi comida. Comi

Arroz, peixe, farofa, enfim, comida. Comi. Comi comida. Comi.

E depois dormi. No dia seguinte a mesma coisa.



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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Urgente.

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As buzinas que infestam nosso ambiente
sabem que é de dor que sofre o corpo.
E meia dúzia de balzaquianos idiotas
tentando impedir que alguém fosse visto por um médico
em hora de grande desespero, uma alergia perigosíssima!

Quatro anos se passaram.
Não me lembro de nada.
O que foi 2005 para mim?
Não me lembro de nada, realmente.

E o corre-corre de transeuntes
manuseia meu espírito e o entorta
de uma forma estranha, que logo me leva
a sentir incômodo de estar ali, de pé, naquele lugar.

Ah sim! Lembrei.
O ano em que conheci o teatro.
Também o ano em que ganhei um celular
que, por incrível que pareça, uso até hoje.

O que você disse mesmo?


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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Controle

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Controle tem medidas.

Têm me dito, eles, que tudo é aflição.

Coragem!

Medo é normal, não pode é parar.


Que tal uma dança em som invisível?

Inaudível.

Peças fundamentais do calcanhar patriota.

Hino nacional, eu cantei com o coral.


Agora vamos, mundo pequeno.

Mostre-me tudo, inclusive as mazelas.

Do coração só brota amor, branquinhas,

Gordinhas, morenas e magrelas.


Que tal uma festa, uma festa daquelas?

Uma merda.

Santinhas cantam, outras expressam

O que sentem sob encanto da música.


E o corpo mexe. O movimento é que é.

Festa em silêncio, ou quase.

Música, melhor não.

Ficamos nas mãos das rádios.


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