quinta-feira, 30 de julho de 2009

de madrugada criança

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é claro que estar aqui é incômodo.
meu trabalho é não pensar nisso.

enquanto as luzes vão se esvaindo,
meu corpo recebe um esforço tranquilo.

silêncio necessário pelo costume da casa,
é feito como o último pedido do herói.

para manter-me aqui, ativo na voz,
estive contraindo e flexionando muitos músculos.

é cansativo tanta dedicação
para sentir-me vivo em algum coração.


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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Jogo 1: Adivinhe o Movimento das Pessoas no Poema

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Um homem. Um desejo.
Três mulheres. Três desejos.
Um homem. Dois olhos.
Três mulheres. Três bundas.
Um homem. Um pênis.
Três bundas. Seis nádegas.

Três mulheres. Um amor.
Um homem. Um destino.
Três mulheres. Três destinos.
Um homem. Uma bunda.
Uma bunda. Duas nádegas.
Duas nádegas. Seis nádegas.


(tenho reparado meu tom pornográfico de ultimamente)


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quinta-feira, 23 de julho de 2009

a oportunidade do silêncio é muitas vezes sádica e/ou cruel. a possibilidade da página em branco é uma alternativa muito tentadora.













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Desconstrói, constrói.

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Digo o que você não quer ouvir
Um enorme eclipse pros seus ouvidos
Que desde o seu nó de umbigo
Alguma coisa acontece ao digerir

Palavras que te dobram metade
Arrancam de você a verdade
Sem que queira saber de nada
Olha para dentro de sua atividade

As eternas corridas pela montanha
Nunca aconteceram, moça má
Que deve haver algo muito estranho
No final de tudo isso a encontrar

Herói do amor inabalável?
Provavelmente um covarde calado
Muito menos que outro tipo, afinal
Aquele que conquista e depois larga na pista

E o sexo de um céu católico breu
Não custa a dizer: não sou novidade
Mantém, como menina má que é, sua castidade
Para ninguém falar que comeu

Este é o pior tipo de vagabunda:
Aquela que não joga fora o desejo
Retém toda a vontade, dá beijo
Mas não dá buceta nem bunda

Este é o pior tipo de rima:
Vagabunda com bunda
Desejo com beijo
Pena eu não ter uma boa prima

Com a boca carnuda
Com as pernas gostosas
Para eu exercitar meus bíceps
Com pica grossa

Não estou sendo grosseiro
Você parece querer interpretar
Tudo de uma maneira leviana
Como se estivesse sempre numa cama

Nada aqui é o que parece ser
Inventamos mentiras para sobreviver
No caos dos olhos humanos distantes
E seus beijos cegos itinerantes

Sou na tua vida um incômodo
Que gostaria (que horror) de ser cômodo
Da casa do seu ser, enfim, seu corpo
Atrapalhado poeta - apaixonado louco


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segunda-feira, 20 de julho de 2009

Organização

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Eu me organizo dentro da minha bagunça.
Por que arrumaram a minha bagunça?
É nela que encontro tudo o que preciso,
Na minha bagunça que eu conheço.

É melhor estar tudo uma bagunça enorme
E eu encontrar, saber onde cada coisa está,
Do que ter tudo muito organizado
E não encontrar nada por estar tudo espalhado.

É na bagunça que eu vou catando cada peça
E tento me construir de forma equilibrada.
Não, não organize as minhas coisas ao seu modo
Você já reparou no tempo que eu demoro?
(É difícil encontrar o que preciso.)


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domingo, 19 de julho de 2009

selvageria.

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Vou saindo pelas beiradas, enquanto você ta distraída com suas preocupações maiores, lazeres, ou seja lá o que for, suas prioridades, enfim. Já bebi um pouco demais e se algumas vezes, na sua frente, peguei o violão e toquei alguma coisa, acredite: foi só para ter algo familiar por perto. Pura defesa. Agradeço pelas noites mágicas, sorrisos inesquecíveis, suspense enigmático, amor sem coragem. Falha em algum lugar da comunicação. Não repare se eu não falar contigo em algum momento de pressa. É que o tempo empurra a todos, como esteira rolante. Bem que no fundo eu tenho um fio de bondade, de divindade, quem sabe. Sei olhar para uma pessoa lá no fundo. Onde poucos sabem chegar. É uma espécie de dom, eu diria. Não existe voluntário para isto, é como se eu fosse escolhido. Se me faz bem, fica a dúvida.
Até logo, nos vemos algumas vezes ainda. Não sei como. Veremos. Espero que aprenda muito bem e siga no caminho da verdade. Sabe de qual estou falando? Teremos crises de identidade. Não? Pois que seja qualquer tipo de confusão sobre o que nos vale. Eu não posso mais acumular dúvidas, e hoje tenho poucas. Tive uma queda recente, mas como um tigre, meus músculos incharam na força de um levantar pró- cardíaco. Os batimentos aumentaram, adrenalina, sentimento de competitividade, testosterona, um tigre. Fique aí na mente este sentimento de ser muito bom e especial, para que eu seja mimado e siga o caminho do que acho certo para mim e para o que chamo de coração.



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sábado, 18 de julho de 2009

'Cause this is Thriller!


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Ultimamente tenho pensado bastante em uma figura conhecida de nós todos, seres habitantes do planeta Terra: Michael Jackson. Eu fui um grande fã dele, quando criança. Continuo sendo fã de seu trabalho e acho que o cara realmente era fora de serie, incomparável. Artista. Eu era um pequeno gordinho e de olhinhos semicerrados, tímido e serelepe. Ganhei do meu pai uma fita de vídeo que mostrava o vídeo Thriller e os bastidores da filmagem, ensaios e toda a produção. Fiquei completamente encantado com tudo aquilo, aquele mundo de monstros, zumbis, mortos vivos e aquele cara dançando daquele jeito, se transformando em cadáver bailarino. Decorei toda a coreografia do clipe e, nas ruas, em alguma loja de discos, de conveniência, em algum shopping da cidade, em qualquer lugar que tocasse a música, eu parava o que estava fazendo e começava a dançar a coreografia de Thriller. E eu cantava a música. Fazia cara de monstro. Eu era uma criança saudável, afinal de contas! Ultimamente me pego, às vezes, tentando fazer a dança de novo. Outro dia fui pesquisar na internet e estou reaprendendo. É bem difícil fazer parecido com o que eles fazem no clipe, pois são bailarinos, devem ter ensaiado muitas e muitas vezes, e todos os motivos que podem explicar a dificuldade de se fazer algo. Agora sei que quando era criança eu devia fazer tudo errado. Só alguns passos certos, alguns movimentos engraçadinhos, e coisa e tal. Todo mundo ao redor ficava sorrindo, achando aquilo tudo muito bonitinho. E eu nem ligava pra nada. Eu me tornei fã do Michael. Queria a jaqueta, a luva, as sapatilhas, o chapéu... Depois fui crescendo, me apaixonei pelo rock, depois pelo heavy metal, pelo blues, pela música, depois descobri que não tem nada disso de estilo musical. Existe o artista. E gosto de lembrar de Michael Jackson em duas fases, especialmente: ainda criança, talvez com uns 12 anos, cantando num programa de televisão americano a música Who’s Loving You?(http://www.youtube.com/watch?v=ane6VJGlIMs, e mais tarde já um rapaz com seus 21 anos, cantando Rock With You (http://www.youtube.com/watch?v=7hK3Y1Ehv9c), naquele vídeo clipe todo cheio de luz de discoteca e uma música deliciosa de se ouvir. Nessas duas fases, ele estava vivo. Bastante vivo. E é assim que quero lembrar dele. Enquanto isso, continuo ensaiando o Thriller.




(O vídeo de Thriller que encontrei no youtube não está disponível para que eu possa incorporar ao blog, mas segue o link: http://www.youtube.com/watch?v=AtyJbIOZjS8)


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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Leo is an asshole.

Leo é um babaca.

Leo is a desperate

Leo precisa duma vaca.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Toca.

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Ahhh... Eu sei que você me ama...
Vem aqui, deixa eu te apertar e te lamber.
Vem que eu sei, você não me engana.
Tá na cara que você me ama.

Quer se fazer de gostosa, né?
Porra, eu já te dou valor demais,
não faz essa sacanagem, mulher...
Só falta eu te agarrar e te comer.

Pra que?
Pra acabar com a putaria.
Com a merda que você fez aqui comigo,
No órgão mais sangrento.

Sim, sim, claro! Claro!
Vai dizer que eu tô começando a ficar erudito!
Que eu fico nervoso nas idéias e incauto na escrita.
Ou que eu tô muito louco, e... Não!

Não vai dizer nada disso
Porque não há o lugar e tempo
Sobrando para uma olhada na alma.
Pra quem acredita, eu te daria um prato cheio!

Vem pra cá, vem...
Deixa de ser burra!
Você estuda, estuda, estuda
Mas a tua cabeça te derruba.

Sei que você me ama, sei que não.
A gente bebe um vinho leve,
Faz a cama, faz de corpo atrito bom
E depois se ama. Por um segundo esquece a razão.

Foi embora. Não sei se volta.
Estou arrumando minhas coisas.
Lembranças teremos. Diferentes.
Mas o espírito cede à troca. Vem e troca.

(É a chance. Volta.
Ou solta a corda.
Relógio te acorda.
Se toca. Me toca.)


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domingo, 12 de julho de 2009

brechó das almas perdidas

Bebericando na ponta do copo
Cerveja servida aos poucos
No entorno de um filme louco
Pois não houve, ouve blá

Vontade há de ir pro quarto
Tirar as roupas
Ficar à vontade
Deixa que a vontade te leva

Sinto fome a cada hora
Algo que entra literalmente
No meu corpo físico
E eu acho que só tenho este

Necessidade, minha amiga,
Nessa cidade, querida,
Você não precisa passar
Se é que você ainda tem alma

mural

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Confesso que deixo de entrar em alguns blogs e sites porque tocam música imediatamente, automaticamente, e geralmente peças terríveis de arte. Seria bom ter a opção de clicar para ouvir, ao invés de clicar para não ouvir. Até lá, já fomos arrebatados pelas notas pontiagudas.

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eu vi a cara de shakespeare

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ele andava por aqueles corredores, passos lentos e tranquilos. sua cabeça estava quente, pensava em mil coisas, pensava numa só coisa, o tormento. e aquele pensamento não saia da cabeça dele. andava pela estrada de pedras, atravessava a estátua, via as possibilidades de cimento, as cordas nas árvores. não via nada, e essa era a única consciência. sabia do que acontecia, mas andava por aqueles corredores como se tivesse algo perdido por ali, por aqueles muros, imagens na parede da cabeça. coisas esquecidas, problemas não resolvidos. feridos. E era triste aquele vai e vem, subindo e descendo escadas de fantasmas. e depois os passos incertos, em direçao ao tumulto inevitável do amanhã sem mais. o Frank me dizia sempre que era medroso quando se tratava de falar com muheres a respeito de seus sentimentos. eu não dizia nada. pedia para que continuasse sem levar isto em consideração, uma hipótese. ele voltava, ficava até o último minuto ficou, para que pudesse saber: não. ela não vai ter tempo. o calendário e o relógio são os medidores do quê? pedir tempo é quase como um crime, uma ofensa. e se amanhã me irradia o abismo pra que eu pule e me vá num estalo? não temos isso que chamamos tempo. abstração. e via os anúncios. e pensava muito enquanto era para estar fodendo. achava que o mundo era uma bela porção de eternidade, beleza. como será um dia rejeitada, mais velha, a mulher que quando jovem rejeitou muitos homens. e assim nos damos conta de que tudo que se escreve, compõe, vê, cria, tudo o que se faz, é igual. constantemente nos imitando. A imitação da imitação da imitação e assim sucessivamente até o início de tudo. mas aí já é outro assunto.

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sábado, 11 de julho de 2009

e a musiquinha fica tocando no meu ouvido
eu que já não consigo mais prestar atenção em nada
o sono vem me assaltando por dentro e leva meu corpo
para outro plano, talvez uma espécie de esfera
o absurdo está no que não podemos crêr
é difícil a vida o amor a magia o dinheiro a saúde
mas podemos viver com algumas dessas coisas apenas
cartas não são dignas de pensamentos eternizados
como se o papel fosse eterno como nada realmente é
senão uma coisa.

Amasso

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Vou bater a massa e jogar farinha nos ovos

E amassar bem no meio do suvaco com cascas de cebola.

E qualquer coisa que valha uma frase, pode ser palavra solta.

Sem sentido, desconexo, confuso, incoerente, obtuso, decente.

Em certo sentido, sentido errado. Machucou? Levanta.

Fritar ovos numa frigideira preta, até nisso você me aparece!

Vê se me esquece e me deixa esquecer você.

Brincaríamos muitos e riríamos de tudo, mas você não quis isso.

Você achou que era melhor fazer atividades extras.

Extra-corporais. Extra você. Extra. Fora de.

E se deixasse falar o silêncio, encontraria a si mesmo.

Mas fala, fala, fala, e esse é o medo da verdade.

Enquanto isso, me passa o açúcar, por favor.


Peço favor pelo açúcar, mas ainda sou mesmo muito polido.

Um gentleman, como diria uma amiga.

É preciso que olhe para mim. Sente-se. Levante-se. Caminhe.

Vamos subir aos altos pontos do infinito.

Se não fosse tão gentleman, te agarraria pela cintura, pegaria nos teus cabelos

Por trás da nuca, te assaltaria um beijo nervoso, e arrancaria suas roupas uma a uma.

Te comeria na frente da mata, de todos os seres vivos, de todo o planeta e afora.


Comeria-te na cozinha, por cima do bolo, com massa e rolo sujando os cabelos

E vamos que eu faço isso em qualquer coisa, e é só isso o que eu faço.




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sexta-feira, 10 de julho de 2009

In Hell

Assisti hoje a uma peça chamada No Inferno. Foi montada por uma companhia de teatro de Cabo Verde. Está acontecendo aqui no Rio de Janeiro uma espécie de feira onde apresentam-se grupos de Angola, Cabo Verde, Portugal, talvez... enfim, eu acho que é de grupos de países em que o idioma oficial é o Português. Começou com um pequeno atraso. A peça estava prevista para começar às 21h, mas só começou por volta de 21:20h. O ritmo da peça ditava as cabeças que oscilavam pra cá e pra lá, de um ombro a outro, penduradas por pescoços. Sono geral. A sala era uma arena, de forma que eu podia ver os rostos do público. Bocejos, pessoas dormindo, pessoas fingindo estarem acordadas, pessoas atentas. Uma parte da platéia parecia ser de atores ou profissionais de outros grupos que vieram participar da feira. Tinha, nesta parte, uma mulher deitada com os pés sobre a cadeira ao lado. Se acomodou e dormiu. Acho que passou a noite por lá, se não tiver sido percebida por um funcionário do teatro. Depois do início da peça, ainda demorou bastante para a peça começar. E chegou um momento em que eu queria que ela acabasse. Nao estava irritado, ou incomodado. Achei apenas que não me acrescentava mais. Já tinha entendido. Então comecei a pensar em outras coisas. Lembrei do coro nos teatrinhos de minha infância: "começa! começa! começa". E eu pensava "Acaba! Acaba! Acaba!". Acho que se fosse o caso de votação, a peça terminaria por maioria dos votos populares. No ato. A peça foi válida, afinal, são guerreiros. Lutam contra muitas adversidades, num país de terceiro mundo, onde há muita pobreza, muita falta. E é esse o problema da peça. Falta. Falta algo.
Talvez seja apenas o horário. Público de teatro não assiste a espetáculos numa quinta-feira às nove da noite. Haja paciência! Foi grátis. Foi ótimo.

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E é possível que algum dia eu insira uma gravaçao no início de uma peça minha que diz:

"Senhoras e senhores, pedimos que liguem seus aparelhos eletrônicos, câmeras, celulares, e que por favor, tirem fotografias do espetáculo. É permitida a entrada após o início do espetáculo, assim como a saída. É permitido conversas paralelas. Pedimos, também a gentileza de comerem e beberam dentro do teatro, desde que não precisem carregar seus lixos até as lixeiras mais próximas. É permitida a entrada de animais de todas as espécies, e com qualquer tipo de manifestação patológica que possa ser contaminosa para terceiros. Caso o seu telefone toque durante o espetáculo, pedimos a gentileza de que atenda à ligação. Todos os demais irão esperar pacientemente até que termine. Pedimos também que não fale com voz baixa, pois todos os assentos do teatro precisam receber o áudio da peça. Com apoio de ninguém e patrocínio inexistente, é com grande prazer que apresento o não-espetáculo. Favor fazer barulho no início e pedimos encarecidamente que não aplaudam no final do espetáculo. Sua colaboração e presença não têm a menor importância, de modo que é permitido agir livremente dado sua insiginficância. Obrigado.

quarta-feira, 8 de julho de 2009


- Achei que com um beijo as pessoas poderiam pensar bobagem.

- Que bobagem, pensar isto.

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Os Ratos

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Voltando para casa, eu olho sempre para a mesma sarjeta.

Algumas vezes, vi ratos que se movimentavam como ratos e então, desapareciam.

Entravam no ralo ou corriam para algum lugar mais distante dos seres humanos.

Eu compreendo os ratos.


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Os Velhos

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Os velhos andam bem devagar, principalmente nas ruas.

É compreensível, pois em casa eles já estão familiarizados com os móveis.

É compreensível, também, que alguém esteja familiarizado com móveis.

Mas é muito mais provável que alguém esteja imobilizado pela família.


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terça-feira, 7 de julho de 2009

A humanidade caminha para o caos.




A humanidade caminha para o caos.

E muitos, hoje em dia, vão de metrô.

Pagam sua passagem e quando entram no vagão

Percebem que o caos chegou.


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segunda-feira, 6 de julho de 2009

só a menina percebe, discretamente

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é onde falam os ventos
nos lugares mais lentos
pontiagudos vulcões de mar
as árvores se calam, não há
exatamente sobre o que falar

é no violão que o músico se cala
apresenta ao mundo suas escalas
e ninguém percebe, só uma menina
que me olha, atenta, as mãos que tocam
enquanto outras falam sobre o que pouco importa

e as palavras caem
como a fumaça de um incêndio pequeno
apoiado nos dedos de uma mulher
que olha discretamente por cima da minha epiderme
e sugere tanta sacanagem que percebo sua febre

e apelos distantes tomando refrigerante
light, pois não engorda tanto, e ela fuma
eu não falo nada, mas por algum truque
a moça vem me dizer que está trancada
do lado de fora de casa, perdeu a chave

e eu, que tanto preciso de afeto, carinho,
faço companhia a ela e seguimos pra um abrigo,
passamos a noite em um motel, pelo menos uma
assim ficamos felizes por uns momentos,
pensando que a vida é assim, de conformidades

(em algum lugar, um amor está pensando em outro
e neste dinamismo todo, de sentimentos em trânsito
sugiro que um dia eu vá cantando toda vida
e siga abrindo caminhos e amores, ao invés de esperar
e lutar por alguém que não compra a minha briga)

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domingo, 5 de julho de 2009

A Calma em Tempos Escassos

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É azedo o gosto da solidão aterradora
Da paixão que não vive em tempos iguais
E quanto mais se ama, mais perto do fundo da lama
Está, e, portanto, poderia alguém dizer que
Não vale a pena?
Talvez. Não vale a pena se apaixonar
Tão profundamente e cair na armadilha
De alguém que não faz nada por maldade
Mas, infelizmente, joga no ombro alheio
O pesado manto de sofrimento escuro.
Há de se ter responsabilidade com os poderes.
O que farei eu, por exemplo, com todo esse universo
de amor, que chega a transbordar em mim,
de todas as formas, com suor, lágrimas, sono, dor.
Profunda dor, de esmagar o peito aos pouquinhos,
Sabendo que não vou ficar com quem amo,
Que não vou beijar, abraçar, apertar, fazer carinho,
Afinal, o corpo é quem ama. Nada mais.
O teatro pede calma, o teatro é eterno.
Eu sou frágil diante do acaso da vida.
Por que me pedir calma, quando tudo o que não temos é tempo?
Porque há tempo. E sofremos por faltar tempo.
Falta tempo para o futebol, falta tempo para escolher,
Falta tempo para a dança afro, falta tempo para amar.
O tempo não falta, fazemos. Fazemos tempo como fazemos
Arroz ou feijão, ou os dois em um só instante.
Aqui embaixo, onde estou, sinto frio.
O frio da terra, o frio da sua mão,
O frio do seu beijo apressado – que ironia!
O frio de ver, aos poucos, o desmonte do quebra - cabeças.
O frio dos teus cabelos de mel, intocáveis como a colméia.
Sinto frio, e daqui posso ver a claridade verdadeira.
Vou subir. Tempo, tempo, tempo, tempo.
Seja preciso. Que seja o tempo de sofrimentos vivos!
Abaixo a alegria morta!
Escolhemos, escolhemos. Não me venha com papo idiota.
Estamos nas mãos do poder. Tenho dito.

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